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sábado, 2 de junho de 2012

Vestindo o carro - Parte 5


Emerson Fittipaldi + Penske

É difícil falar de vestir carro na Indy porque geralmente as equipes não fabricam o próprio chassi. A Penske foi uma das únicas a fazê-lo durante um bom tempo, e Emerson teve a oportunidade de usar os carros de Roger Penske mesmo antes de se integrar ao time. Emerson ainda estava na Patrick Racing quando U.E. Patrick resolveu negociar um carro com Roger Penske, que fabricava o melhor chassi da época. Montou o lendário conjunto Penske-Chevrolet, e para Emerson, foi amor à primeira vista.
O carro já era vitorioso nas mãos de Danny Sullivan e Rick Mears, e Emerson iniciou a temporada de 89 com o chassi do ano anterior. Foi o suficiente para ele perceber que tinha canhão nas mãos, como ele mesmo revelou no livro “A arte de pilotar”, em depoimento a Gordon Kirby (recomendo essa leitura, por sinal). Emerson não só triturou a concorrencia com o Penske PC89 como ainda levou a Indy 500 de forma espetacular, o que foi um pouco decepcionante para Roger Penske. Ver seu carro sendo campeão é até bom, mas se torna muito melhor quando faz parte de seu próprio time.
Por isso, Roger chamou Emerson para integrar sua equipe no ano seguinte, mas o ano não foi muito promissor para a Penske: o campeão foi Al Unser Jr., da Galles, e a Indy 500 ficou nas mãos de Arie Luyendyk. Mas mesmo com a equipe se reestruturando (com a saída de Sullivan e Mears cada vez menos presente), Emerson permaneceu no time, e após o afastamento definitivo de Mears, que quebrara o pé nos violentos treinos da Indy 500 de 92, ganhou como companheiro o agressivo Paul Tracy. Emerson continuou forte, mas foi em 1993, com a chegada de Nigel Mansell na categoria, que Emerson teve ainda mais motivação.

O motor Chevrolet estava mais fraco do que o concorrente Ford, mas o chassi Penske era tão bom que era capaz de nivelar um pouco essa vantagem. E com um não menos motivado Mansell pilotando o Lola-Ford na Newmann-Haas, disputas inesquecíveis foram travadas. Para delírio dos americanos, Emerson venceu a Indy 500 pela segunda vez e protagonizou dois pegas que marcariam a temporada: Cleveland e Portland, que marcariam a temporada. Mesmo com o campeonato indo para as mãos de Mansell, Emerson teve um de seus melhores anos na categoria.

Emerson ganhou mais um companheiro na temporada seguinte, Al Unser Jr., em um campeonato que seria marcado pela extrema supremacia da Penske.  Emerson quase venceu a Indy 500 pela terceira vez, mas uma batida no final da prova acabou dando a vitória a Al Jr., que ainda foi o campeão ao final da temporada. Foi também quando Paul Tracy deixou a equipe, indo para a Newmann- Haas.
Como Emerson disse, a Penske acabou pagando cara por se julgar a melhor. Em 1995 a equipe teve um desempenho decepcionante, passando ainda pelo vexame de não se classificar para Indianapolis, batida justamente por um de seus chassis: Stefan Johansonn, da Betenhausen, tirou Emerson do posto 33 no Bump Day, arrancando lágrimas de Emmo. Foi no final desse ano que a Indy se dividiu em duas: IndyCar (que passou a ser CART em 1997) e Indy Racing League (IRL), fundada por Tony George, administrador de Indianapolis.
Tony George decidiu que em 1996 somente 5 equipes da CART poderiam tentar vagas na Indy 500, e as equipes decidiram que não iriam. No final, Walker e Galles acabaram cedendo, mas não com os pilotos que disputavam a outra categoria. A Penske chamou Paul Tracy de volta e criou um novo time em parceria com Carl Hogan. Nascia a breve Hogan-Penske, com Emerson ao volante.
Aquele ano foi marcado pelo equilíbrio e também pelas disputas espetaculares. Embora a Chip Ganassi tivesse uma leve vantagem, não havia um favorito nem para as corridas e nem para o campeonato. A Penske demonstrava uma melhora com relação ao ano seguinte, e um segundo lugar de Emmo em Nazareth após uma boa disputa com Michael Andretti, aumentava mais uma vez sua motivação. Mas infelizmente a parceria seria interrompida por um grave acidente. Foi justamente na Michigan 500, onde Emerson havia vencido sua primeira prova na categoria 11 anos antes, que Emerson acabaria deixando a categoria. Ele foi tocado pelo agressivo novato Greg Moore ainda nas primeiras voltas e bateu muito forte. Como resultado, uma vértebra explodiu, perfurando o pulmão de Emerson e deixando-o por vários dias em  estado delicado. Temia-se que houvesse seqüelas, e após um longo período de recuperação, ele decidiu que era hora de parar de correr. Claro que demorou um pouco para que parasse por completo, ainda disputou a GP Masters ao lado de outros veteranos (onde pôde reviver boas disputas com Mansell) e correu na GT3 com um Porsche em 2008, encerrando suas atividades na pista.
De todos os lugares por onde passou, com certeza a Penske se destacou como o lugar ideal para Emerson, afinal a equipe lhe deu motivação e bons momentos, o que foi de grande valia para quem não pôde acompanhar sua carreira na F1, como eu. Serviu também para que conhecêssemos melhor a Indy, afinal a imprensa brasileira só passa a cobrir alguma categoria quando tem um brasileiro vencedor. E ninguém melhor do que Emerson para fazê-lo.



Ayrton Senna + McLaren

Pode parecer clichê, mas seria impossível falar sobre grandes parcerias sem mencionar Ayrton à McLaren. Ele era o tipo de piloto rápido que só precisava estar no lugar ideal para tornar-se campeão. E, como sabemos, no final dos anos 80 esse lugar tinha um nome: McLaren International.

Senna talvez tenha sido melhor nos negócios do que nas pistas, o que significa que ele criou suas próprias oportunidades melhor do que ninguém. Conseguiu uma parceria com a Honda que acabou levando o melhor motor ao melhor time, que possuía agora dois dos melhores pilotos. Ou seja, em 1988, a McLaren era o melhor time que podia ser. E foi. Aliás, na história, fica difícil de lembrar de um time que tenha sido tão forte quanto o time de Woking no final dos 80. 988 foi ano mais perfeito que um time poderia ter, e se o ano não foi marcado pelo equilíbrio, foi marcado pela intensa disputa entre seus dois pilotos.
O time sempre foi marcado por dar total liberdade de disputa entre seus pilotos, em qualquer época que fosse, e naquele ano os dois se aproveitaram disso muito bem. Prost já somara dois títulos e um vice pela equipe, e estava disposto a reverter a situação de 1987. Venceu 4 das 3 primeiras provas de 88, até que Senna iniciou uma fantástica reação. O que se seguiu foi uma batalha intensa ponto a ponto, até o GP do Japão, onde Senna levaria o título se vencesse a prova. E ele fez a pole, mas o carro apagou na largada, lançando-o para o final do pelotão.
Todos deram o campeonato por terminado, afinal ele estava muito longe de Prost, que possuía o mesmo equipamento. Ou seja, mesmo que ele ultrapassasse todo mundo, Prost seria praticamente inalcançável. Ayrton partiu alucinado para cima dos concorrentes, fez ultrapassagens fantásticas, e Prost disparava na frente. Mas começou a garoar.
Foi talvez a fusão mais perfeita entre homem e máquina. Senna passou por Prost com facilidade, tanto que este apenas ameaçou uma reação. Mas parecia impossível deter Senna naquele dia, e ele levou o campeonato de forma espetacular. Somente na Italia a vitória não ficou para um dos dois, e no final a briga ficou em 8X7 para Senna.
No ano seguinte Senna quebraria o famoso acordo de não ultrapassar antes da primeira curva, o que deixou Prost indignado. A briga tornou o clima da equipe insustentável, a ponto de fazer os dois perderem a razão. Prost assinou com a Ferrari para o ano seguinte, mas estava decidido a ser campeão. Embora Senna tivesse um número maior de vitórias, teve muitas quebras e desperdiçou alguns pontos, o que Alain nunca fazia. O francês chegou ao Japão com vantagem, e todos conhecem a história: Jogou o carro para cima de Senna, que voltou, venceu e foi desclassificado. O título foi de Prost, beneficiado pela proximidade com Jean-Marie Ballestre, então presidente da FISA.

Senna começou 1990 com uma vitória em Phoenix, e no Brasil mais uma vez deixou que sua impaciência lhe roubasse a vitória, quando perdeu o bico ao tentar ultrapassar o retardatário Satoru Nakajima. Mas, embora Prost estivesse na Ferrari, a briga entre os dois permaneceu nas mesmas proporções de quando dispunham do mesmo equipamento. Na metade final do campeonato a Ferrari tinha um equipamento ligeiramente melhor. Mas Senna não esmoreceu, e dessa vez foi ele quem chegou ao Japão com vantagem. A vantagem se ratificou com a pole, que mais tarde causaria polêmica.
Acontece que o pole teria o privilégio de escolher por qual lado partiria, mas pouco antes da largada, Jean Marie-Ballestre revogou o privilégio, causando revolta em Ayrton. OU seja, ela sairia na frente, mas Prost teria o lado mais limpo. Foi aí que Senna levou a disputa além da razão, e na primeira curva lançou o carro para cima do francês. Como disse James Hunt, uma maneira triste de se acabar um campeonato.

Senna iniciou a temporada seguinte de maneira perfeita, vencendo as quatro primeiras provas. Prost não tinha um bom equipamento, e o principal adversário de Senna foi Nigel Mansell, que estava de volta à Williams. Nos primeiros GP´s, a falta de confiabilidade da Williams foi a vantagem de Ayrton, mas o carro evoluiu muito até a parte final do campeonato, ao contrário da McLaren, o que fez com que o campeonato chegasse mais uma vez para ser decidido em Suzuka com todos os ingredientes necessários para uma corrida emocionante. Senna deixou que Berger escapasse na ponta e vinha segurando Mansell, em uma estratégia da McLaren, quando o inglês errou na curva que sucede a reta dos boxes. Senna conquistava um campeonato que mais tarde ele consideraria o mais perfeito de sua carreira. Infelizmente, no ano seguinte, a disparidade da Williams não permitiu que qualquer outro carro alcançasse seu desempenho, o que desmotivou Senna no time vermelho. Para piorar, a Honda anunciava sua saída da F1.  A parceria estava quase chegando ao fim.

Senna tentou a Williams para 93, o que não foi possível, já que a Renault quis Prost no time. E o francês, que não era besta, vetou a entrada de Senna, que chegou até a cogitar um ano sabático. Mas quando ele testou o carro, viu que não era tão ruim quanto o do ano anterior, e estava determinado a lutar com Prost.
Ayrton teve o que mais tarde foi considerado o melhor ano de sua carreira. Venceu de forma espetacular em Donington, colocando uma volta sobre Prost. E mesmo com o francês sendo campeão, Senna venceu o duelo final entre os 2, em Adelaide. A Williams quis Ayrton, preterindo Prost.
Embora o final da parceria tenha sido amigável, Ron Dennis não escondeu a mágoa que o episódio causou. A equipe havia apoiado Ayrton sempre que necessário, e agora ele deixava a equipe em uma situação difícil. Em outros termos: Senna comeu a carne e não quis saber do osso. 3 GP´s depois, Ayrton encontraria a morte em Imola, sem marcar nenhum ponto na tão almejada Wiiliams.

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